sexta-feira, abril 14, 2006

Fábula sem pé nem cabeça.

Há muito tempo, quando ainda havia pessoas que sabiam das coisas, num reino distante, morava, sozinha, a menina sem gratidão. Todo dia, alguém vinha, e deixava comida na porta da torre, e ela sabia que sempre que abrisse a porta àquela hora, iria encontrar um prato bem gostoso: macarrão, pizzas, bananas, maçãs - às vezes, tudo misturado. E acreditava que tudo aquilo era só pra ela, que era mágica.

Mas era o jovem mensageiro quem sempre pagava o pato. Ou prato: não ganhava gorjeta, passava um tempão esperando alguém vir pegar a entrega, e nunca ninguém chegava. Ia embora, mas no outro dia, o prato havia sumido e lá ia ele explicar pro cozinheiro que alguém roubara o prato. Mas como você me perde um prato cheio de tanta comida, rapaz?! Mas não há ninguém naquela torre, senhor! Nunca vi ninguém lá, nem pela janela, nem à porta! E o senhor ainda me paga pouco e eu tenho que andar dez quilômetros todo dia, pra deixar comida pra ninguém! A culpa não é minha!

Nunca mais se ouviu falar do jovem mensageiro, depois desta discussão. E a menina do alto da torre amaldiçoou deus e o mundo. Morreu de inanição, sozinha, com os ratos, do alto daquela torre escura, numa noite de chuva parca.

segunda-feira, abril 10, 2006

O cadernim.

Foi atrás daqueles caderninhos de anotações, que o último tinha acabado, só algumas folhinhas no final. Tinha que ser daqueles peuqnininhos, pocket, de poder levar mesmo no bolso, pra sacar na hora que a Hora se cristalizar em galhos, em olhares, em ruas. Os caderninhos são pra agarrar o rastro de poeira do instante.

Os instantes são os nenúfares da Alice. Pra você que não sabe o que é um nenúfar, é parecido, quase igual, com uma vitória régia. Os instantes são a falta, são a saudade. Eu quero o meu instante, cadê? Vala me deus, ele parece sabonete com água, e caiu justo em cima do boeiro.

O instante são os outros. O instante é sujo, é opaco e transparente. Instante não é signo, signo é o que agente descobriu pra tentar chegar no instante, mas o instante é sempre depois. E quando cheguei na loja, nem tinha o cardeninho, e eu tive que ir embora só sentido, sem palavrar.

quinta-feira, abril 06, 2006

Vento vindo de cima.

O céu lá em cima e eu todo mundo em baixo, sem daber da sua história, nem conhecer quantas lágrimas foram fabricadas. Tão artificialmente algumas vezes, mas teve vezes necessárias. Lágrimas são sempre necessárias: nos momentos certos: se for toda hora, elas irão o poder poderosíssimo que possuem since the beginning of time.

Dizia que o céu lá do alto nos observava aqui embaixo; e enquanto digo isso, observo um olho azul, na borda da praia, esperando alguém parar para me ajudar - onde estão os bons amaritanos? - mas ou não tem ninguém na praia, e somos só nós dois, ou as pessoas estão desviando as vidas para bem longe daqui. Talvez seja culpa do céu, que não pára de nos encarar.

Quero ir para bem longe e deixar esse cadáver de olhos azuis para o mar engolir.

quarta-feira, abril 05, 2006

Cinema.

Não havia nada planejado. ele nem esperava que ela dissesse sim, de tão tímido que bloqueava a luz do sol. Ela, cansada dos avanços dos chatos fortões, um carinha daquele, magrinho, não era bonito, mas também não era feio. Contudo, o filme era bom, e pelo menos ela não iria pagar, porque era daquele tipo, ela sabia. Dito e feito, nem pagou, e quase que ela testou até quando ele iria, fingindo esquecer a carteirinha de estudante. Mas era maldade demais. Vejamos o que vai acontecer lá dentro, mas isso só depois.

Antes, eu quero falar dela, de jeito meigo, arrumada, expansiva, conversa com todo mundo, não estuda na hora do recreio: recreio é recreio, não é intervalo. Tem várias circundantes, que circundam ela no recreio, mas só no recreio; na hora da aula, ela é daquelas que sentam na frente, e fica discutindo filosofia de milésima com o professor que não tem coragem de admitir que não sabe a matéria. Ela é das chatas. ele é um cdf-nerd-de-quase-fundão.

Dentro do cinema, sentaram perto da saída, que era pra ela poder ir logo simbora, se o filme ficasse chato. Ele não ia fazer nada, sabia, então isso tava tranqüilo. Poltrona macia. Ela não colocava os pés na poltrona da frente, é falta de educação. Ele não tava nem aí, mas tirava o sapato, que não tinha chulé. Deve ser aquele spray. O filme não começou, e tava naquele momento que só quem entra logo na sessão que acabaou de acabar conhece; quando não tem ninguém de antes e só depois que vão chegar os parcos outros. Ele olhou pra ela com pouco mais que um estar sentado ao lado dela. Aquela ali já era a dádiva-mor. O problema é que ele nunca se contentara com pouco, e roubou um beijo que ela nunca havia esperado, nem em um milhão de anos. Chegou o resto do povo e a história roubada acabou.

segunda-feira, março 27, 2006

Não vou publicar porra nenhuma hoje.

Se alguém me lê, desculpe o autor, fique com raiva dele, esqueça dele, afinal é um de mais tantos blogs.

Mas eu ainda rogo, do fundo da minha parca esperança, que tenha um pouco de paciência; que se alguém visitou este site algum dia de sua miserável e péssima vida que entenda que quando escrever se torna um fardo, deve-se jogar as palavras de lado por algum tempo, até que elas decidam voltar a nós. Jogo de lado minhas palavras, então, na intento de que elas não me abandonem, pouquíssimas que já são. Obrigado e boa-noite.

sábado, março 25, 2006

Dois menos dois.

Pronto? Pronto. Quando eu contar até três, tá certo? Tá certo. Tá...

Eles haviam se encontrado faz pouco tempo, na praça. Foi um só telefonema, um objetivo. Duas pessoas que não aguentavam mais. O que perderia o mundo, senão pouco menos que dois pedaços de carne, ocupadores de espaço ambulantes? Aquela era a melhor saída.

Um. Dois. Tr...

sexta-feira, março 24, 2006

Sede.

E queria porque queria. Mais do que todos os chocolates do mundo, ele queria um pouquinho, só um tiquinho de nada, mais do que uma tragada num Marlboro, mais do que um Charge, mais do que um Smash, mais do que o álbum com a adaptação do Hamlet. Mais do que tudo isso, queria.

E se lembrou daquele pergunta - uma das perguntas certas: e, por acaso, eu quero o que desejo? Leu numa capa de livro, enquanto passeava pelo supermercado Hiper, que fica do lado de um trem que corre desde Fortaleza e vai desaguar em Guaramiranga. Lá em Guaramiranga, tinha memórias de lá, sua mãe nascera lá, ele tinha raízes ainda fortes com a única rua da cidade, com a minipraça, com as casas de muros rosas, azuis, brancos, azuis e brancos; e as serras de fundo, pintadas, eram bem maiores e bem mais verdes do que via quando descia a rua da sua casa, voltando do trabalho.

No trabalho, também queria. Principalmente no trabalho, quando todos estavam digitando, ou escrevendo ou mandando alguém fazer alguma coisa ou fofocando ou bebendo água e fofocando ou pensando em mandar a loira editora tomar no maldito cu. No trabalho, ele queria: desejava.

quinta-feira, março 23, 2006

Um conto.

Eu não tenho nem vontade de escrever um conto hoje, nem inspiração, nem quero trabalhar alguma estória já contada; não tenho uma na minha caixinha de memórias, não tenho coisas aproveitáveis no meu cadernim. E quando tudo isso acontece, e que acontece é um conto tropeçando na corcunda de si mesmo, e cair gemendo - não de dor - mas das palavras mal-postas pela má vontade do palavrador.

Então quero registrar minhas mais falsas apologias a este texto tão singelo que deveria mais é calar a boca e dar graças aos céus que foi escrito! Opa, mas que bobagem eu digo: é a raiva, é a impaciência; eu que tenho que dizer obrigado ao universo por ter me escolhido para tentar colar as coisas nas palavras, mesmo aqui não sendo poesia, mesmo eu não sendo de Portugal, nem tendo bigodinho, nem minha namorada chamar Ofélia.

E não é que consegui chegar ao último paragrafinho? Às vezes, lendo algo por aqui, fico com vergonha de ter problemas em chegar ao mísero terceiro parágrafo; às vezes, quando observo algumas destas marmotas, fico pensando onde está a estória, cadê o conflito, a reflexão psicológica, e não encontro, ou talvez não saiba procurar. Mas o meu trabalho não é ficar escavando sentidos, como disse a sra. Mirella muito bem: "não vejo muito sentido em fazer sentido."

quarta-feira, março 22, 2006

Hoje não.

Chove, do lado de minha porta. Os vitrais amarelos tentam imitar o sol envergonhado, mas o transparente cede seu lugar ao cinzento de fora. Não há, faz bastante tempo, barulho de carros pela rua em frente, ou cachorros latindo para estranhos, nem fogões sendo ligados, nem campainhas soadas. Nem uma voz que não seja a do trovão lá fora, cheio, grosso; tolerante conosco, não se mostra por inteiro: filtra-se a si mesmo com uma surdez que toda chuva carrega consigo. Tantos pingos à tarde são prenúncio de noite fria, enclausurada.

A luz de meu quarto, amarelada, meu dicionário de espanhol de capa amarela, tudo são ironias para comigo, e minha rinite, essa dama angustiante, revela sua presença outra vez. Os morcegos que normalmente vejo batendo com as cabeças em minha janela devem estar juntos, entre as asas uns dos outros, esperando que este cinza barulhento vá embora, que o silêncio retorne, que os ratos saiam de suas tocas e que as baratas possam rastejar sem o perigo da corrente da calçada arrastá-las.

Hoje é um dia triste, de chuva, um dia quase preto, quase branco, um dia de dúvidas, duvidoso de si mesmo, se deveria ter nascido junto com o sol; se não seria melhor deixá-lo brilhar sozinho, junto com a escuridão da noite. Talvez a lua gostasse da companhia, mas que sei eu dos sentimentos dos astros? Não me atrevo à especulações. Hoje não.

terça-feira, março 21, 2006

A promessa que não se cumpriu.

Ela voltava da feira como Ulisses: alas, carros, rodas enferrujadas, luzes, paredes amarelas, nescafé, margarina, o que é ricota? ops, desculpe, não te vi por aí, olá como vai, tudo bem, não queria esse, era o vermelho que eu tava atrás, ó, moça, desculpa, dá pra tu tirar da notinha, por favor? Vixe, tenho que chamar o gerente, senhora, só um minutim.

Voltava satisfeitíssima pra casa, pouco mais do que feliz, acima do chão, contente consigo mesma. Mas hoje era noite de lua-cheia, ela era de peixes, e o sinal fechou. O carro morreu. Bastou isso, foi um gatilho, e a bala atravesara seus olhos miúdos e verde-amarelados: puta que porra! Carro filho da puta, deu no prego, num pode! Anda, cão! Agora, no meio da rua, Ave Maria, Oh, meu Deus, me ajuda. Oh, Senhor, hoje num podia, hoje num podia de jeito nenhum.

Nervosamente ajeitava os cabelos, enquanto os carros de trás, mais impacientes do que apressados, um pouquinho dos dois, vrumavam, um por dois, cada um pela janela dela, que já tinha feito todo mercantil do mês, custara tudo cento e vinte, tinha até comprado passatempo e prometera que hoje ela não ia chorar. Quanta ambição de sobreviver nesse mundo que não ajuda, meu Deus!

segunda-feira, março 20, 2006

Love is all you need.

- Isn't it true that very deep down inside... you know you need much more than your daddy can give you?
- ... All you need is love.

i am sam

Quando ele ficava triste, andava de ponta de pés, pra não acordar o pai. Tão pequenininho ele; filho de divorciados, e a mãe havia mudado pra Europa, isso já fazia dois meses; o marido novo era empresário e quase todo mês ele voava pra visitar. No mês de julho, ele pra ficar uma semanacom a família de lá. Na França.

Enquanto isso, o papai ficava sozinho aqui no Brasil. Talvez fosse visitar a mãe doente na antiga casa perto da Igreja Redonda, ou então ia sair mais os amigos, ir pro bar, assistir filme. Gostava de filmes complicados, que o filho nem a mulher nunca entenderam. Era cheio de DVDs na casa, Woody Allen, tinha do Buñuel, tinha do Bergman, Fernando Meireles. Gostava também do Fellini e todos com o Dustin Hoffman.

Mas, na maior parte do tempo, tudo era muito triste: durante aquele mês de solidão, ele se sentia jogado no lixo. Deve estar sorrindo e brincando em algum lugar que eu nunca vou conseguir visitar. A mãe - o novo marido dela - podia dar tantas coisas pra ele, podia oferecer tanto, mas tanto mais do que ele jamais, com salário de jornalista, poderia. Ela poderia dar tanto pra ele, talvez até amor, algum dia.

domingo, março 19, 2006

O duende bonzinho.

Todo mundo acreditava no duende bonzinho: ele morava em cima de um cogumelo vermelho com manchinhas amarelas. Tinha um rio pertinho do cogumelo vermelho, que chuava descendo, até chegar na cachoeira: chuvia lá embaixo, debaixo e entre as pedras pontiagudas. Por que todo mundo acreditava nele? Ora, porque o duende bonzinho era simplesmente vermelho de felicidade! Ele saía pulando pelos jardins verdes, entre as margaridas, entre os dentes-de-leão, pulando, saltitateando por aqui e por ali, e por acolá também. Ah, como era bom ver o duende bonzinho alegrando essa nossa mata daqui!

E um dia, não faz tanto tempo, meu filho, o duende bonzinho estava a fumar seu cachimbo, sentado no topo do seu cogumelo vermelho. Pitava e pitava, e uma fumaça que ele não queria cinza, escapava azul, roxa, anil e púrpura da boca dele. E lá do alto do céu azulão, todos os animais puderam avistar: dois pontinhos pretos sobrevoando, bem lá de cima, circulando o cogumelo do duende bonzinho. Deve ser a fumaça do cachimbo, pensaram. Mas, na mesmíssima hora, repensaram, ei, mas o duende não pita fumaça negra. Que será?

Com os olhos bem fechados, coçando os cachinhos avermelhados, descobertos do gorro verde-claro, o duende relaxava de sua última tarde de saltos. Isso aconteceu de tardezinha, pra chegar de noite. Daí, meu filho, lá do alto, os pontinhos negros foram descendo e descendo e descendo, e quando não tinha mais pra onde descer, eles olharam, com aqueles olhos grandes e maníacos que só urubu tem, pra felicidade do duende bonzinho. Vieram os dois em cima do pobre pitador, que deixou o cachimbo marrom cair na graminha verde, agora um pouco vermelha, com o dedo mindinho do duende do lado esquerdo do cogumelo.

sábado, março 18, 2006

Noir.

Max, já lhe disse que não queria mais ver sua cara feia pela minha cidade. Sua cidade? Ora, Mr. Ford, don't make me laugh! Esta cidade deixou de ser sua desde que depuseram Halford! Fumo meu cigarro onde quero, ensopo meu sapato onde quero, sujo minha barra da calça onde quiser, cheiro esgoto onde meu nariz me mandar cheirar esgoto, Ford. Crying City é terra de todos e de ninguém.

Herman Ford calou-se, olhou para os trogloditas atrás de si, soslaiou para Max Trie, pitou seu charuto e disse, gesticulando em círculos com a mão enluvada. Max, você tem razão; esta cidade não pertence a ninguém, logo pertence a todos. E, se não me foi tirado este privilégio, gosto de pensar que ainda sou membro honorário da raça humana. Logo, Crie City me pertence; é minha dama, e como tal, tenho que zelar pelo seu bem-estar, mesmo ela não sabendo diferenciar a good stuff da bad. E você, Max, é uma espinha no rosto da minha

Quer dizer que vai me espremer, Ford? Você não teria coragem de espremer o homem que está fodendo sua esposa, teria, Herman? Ora, pela sua cara, deixe-me dizer o que vejo nos seus olhos: você sabia que estava sendo traído, não por Crying, mas pela sra. Trixie Bubbles. Sabia que suas saídas às escondidas não eram ao cabeleireiro. Sabia que o cheiro de colônia na estola não fora comprado por ela. Sabia que o descaso por você era culpa de algum desgraçado que molha a barra da calça pelos becos de Crie.Mas você não sabia quem estava saboreando a moça, não é, Herman? Claro que não.

sexta-feira, março 17, 2006

A garota de Istambul.

Na Turquia, em Istambul, que já chamou Constatinopla, tem uma moça que gosta de um gatinho e de um mocinho. O nome dela eu esqueci, o nome do gatinho eu nunca aprendi e o nome do cara não importa porque ele morreu ano passado num acidente com um Fiat.

Essa moça, pois é, só tem agora o gatinho pra amar, mas ela sabe que gatinhos não vivem tanto tempo quanto a gente. Então a moça de Istambul faz assim: todo gatinho que encontra ela na rua vai logo viver mais a garota de Istambul. Já vivem na casona um bocadão: uns vinte e cinco.

Encontrei com ela dia desses. Tinha viajado pra Istambul pra conhecer o local, porque eu estava com um meu próximo livro que se passaria lá. Daí, liguei e disse pra gente se encontrar. Com meu pedido confirmado, fui entrando na casa, mas quando cheguei, estava deitada no chão, com os gatinhos rodeando. A porta escancarada, as gavetas abertas, no chão. Não tinha sobrado nada, só os gatinhos e uma amiga minha, com os cachos negros cobrindo o rostinho dela.

quarta-feira, março 15, 2006

Todynho.

Juquinha era realmente um meninozinho muito engraçado mesmo: o rapazinho não podia passar um dia que fosse sem tomar uma caixinha de Todynho. Todo dia, quando ele se cansava de brincar com os amiguinhos dele na rua, entrava pelo portão da casa e corria pra geladeira saborear aquela iguaria semi-divina, de chocolate, rica em vitaminas A, C, E, B1, B2, B3 E B6! Ah, bom demais!

E de quando em vez que a mãe do Juquinha comprava Nescau Prontinho? Rapaz, era uma putaria que eu nem te conto. Pense! O Juquinha esperneava: Mas como é que pode, que num o quê, a caixa do Todym é toda preta, toda marrom assim, mamãe! Essa aqui é toda vermelha réa! Arriégua, num quero não! Buá! E a mamãe, que num era besta nem fela da puta, mandava o menino largar de ser besta e ir comprar ele mesmo o que ele quisesse na mercearia ou tomar o que tivesse todim. O Juquinha, ah! Pense num menino morto de preguiça! Num ia e ainda gritava que num vô!

E num ia de reito maneira. Até que, depois de chorar por cinco minutinhos - menos, menos - ele escutava os amiguinhos dele chamando pra jogar Rock N'Roll Racing na casa do Alisson. Já é! E, com aquela leveza e esquecimento - o Forgive and Forget - que só quem têm são os pirrotochinhos e os que esqueceram de crescer, chispava pelo quarto e ia jogar Super Nintendo na casa do Alisson, morto de feliz. Tchau, Juquinha.

terça-feira, março 14, 2006

Coisa boa não é tarefa do destino.

Ele me deu um ovo da Garoto, mas eu disse, claramente, depois de assistir Super Size Me: "Renato, tô de dieta! Vou cortar todas as porcarias!" Mais aí, lá se vem ele, em plena páscoa, tanta hora pra ficar de dieta, com um ovo 48. "É pra gente dividir."

Puta que pariu, Renato! Tu não me ouve não, é? Tu é surdo, porra? Num disse que tava de dieta, que num ia comer mais porcaria? Que que tu tem nessa cabeça? Babaca! Num quero essa porra não! Idiota! Sai daqui! Sai! Sai! Mas eu comprei pra gente dividir, achei que tu fosse gostar. Eu num te disse, porra, que tava de dieta? Tu num tem vergonha na cara, não? Isso aí que tu tem na mão é a prova cabal da tua falta de vergonha na cara! Já te disse que não te quero perto de mim! Mas.

E ele saiu. Do quarto, primeiro. Depois, passou pela sala, abriu a porta e foi-se. Eu sei porque deu pra ouvir o barulho do portão fechando. Quando levantei, fui assoar o nariz, tomar uma dose de coca light e encontrar aquele ovo em cima da mesa de vidro da sala, me encarando. Não tinha ninguém em casa. Eu não tava de TPM. Um ventinho bateu da janela aberta e derrubou o ovo, e junto, todo o meu amor-próprio, todas as minhas certezas, toda as minhas fixações, os meus complexos, meus traumas. Meu coração implodiu de tanto peso em cima dele. Tanto peso que eu nunca soube que tava ali. Eu sempre estive cega pro meu coração. Levantei o ovo, mas não tive coragem de ligar pro Renato pra pedir desculpas. Sempre sou eu quem peço desculpas, ora mais, ele que venha aqui falar comigo. Mas ele nunca veio, eu nunca liguei, nunca me desculpei, nunca o meu coraçãozinho conseguiu se remontar de novo. Fui enterrada, quase só, junto com meu nome.

segunda-feira, março 13, 2006

Um pedacinho de papel rabiscado.

O poeta. Quase ninguém conhecera o poeta, trancado naquele apartamentozinho, com cheiro de café, pão com manteiga, cigarro, muito cigarro, várias caixas de sapato com originais que nunca foram copiados nem chegaram à primeira edição. O poeta, ninguém se lembraria dele. Nem em um dia, nem em duas semanas, nem em três anos.

Em dois anos, o poeta iria morrer de ataque cardíaco. Ele só tinha um gato completamente preto, que escolhera viver junto com o poeta. Chamava-se Meia-Noite, e ronronava quando passava por entre os calcanhares do poeta. Ele tinha os calcanhares gostosos de se esfregar. O poeta não era virgem, mas nunca mais fizera sexo depois que sua agorafobia piorou. Hoje, ele só poeta no seu apartamentinho.

O apartamentinho é alugado e o aluguel é sempre atrasado. Quando chega algum novo síndico cobrar o aluguel do poeta, primeiro ele tromba com os vizinhos que dizem que não se deve implicar com pessoas doentes. E o poeta estava doente. Depois, batia na porta e Meia-Noite - que havia atravessado o parapeito do prédio, e entrado no corredor em frente ao apartmento 132 - miava, em alarme, do mesmo jeito que os vizinhos do poeta haviam feito. O poeta, então, falava baixinho, lá de dentro, desculpa, mas eu não posso pagar com dinheiro, e também não posso sair. Posso lhe pagar com um pedacinho de papel rabiscado?

sábado, março 11, 2006

Magical Mystery Tour.

Aí vem ela. E eles.

Mas já acabou, besta.

Ná, mal não: all you need is love.

sexta-feira, março 10, 2006

A noda da manga.

Moleque, puta merda! Eu disse pra tu tomar cuidado com a noda da manga, criatura! Vem cá, deixa eu ver! Se acalma, já vai passar! Vamo pra dentro, tira a camisa, senão prega e não sai mais.

Toma, passa uma agüinha. Pegou aonde? Graças a Deus não pegou no olho. Valei-me, Lurdinha, que foi que aconteceu? Não, mulhé, ele num foi atrás de pegar manga subindo na árvore? Vala me deus. Pois é, daí ele foi comer uma em cima de um galho e bufu na bochecha dele, caiu no chão, quase que quebra o pescoço. Aqueles gritos eram dele então. Justamente: quando eu ouvi, saí correndo, e encontrei ele deitado na lama, todo sujo, gritando e gemendo com a mão no rosto e uma manga do lado dele. Virei o rostinho dele e vi um rastro de sangue descendo, mulhé. Ai, meu Cristo. Ele nem conseguia abrir os olhos direito, do sangue e da lama, Custódia de Deus. Pode continuar botando água, viu? Só saia daí quando tiver toda limpa a cara, e depois o senhor vai tomar um banho.

Ô, mulhé, num sei o que se faça com o Leandro, viu? Mulhé, ele é muito danado, Deus me livre! Ele é bem ativo, né? Demais, se você quer saber, viu? Outro dia, ele tem essa mania besta de ficar trepando em árvore, eu avisei: Leo, tu vais cair, criatura! Desce logo, anda! Fez ouvido de mercador pra mim, o moleque! E pois num foi que ele escorregou do galho, Tódi? Graças a deus deu pra segurar ele, mas ele ainda se ralou. Ô, menino safado! Já foi tomar banho, Leandro Maria dos Santos? Pois pode ir! Arriégua!

quinta-feira, março 09, 2006

A loura.

Ela saiu do banho, loiraça, de fazer toda Beira Mar ficar com torcicolo. Enrolada numa toalha rosa, aqueles cachos molhados, os olhos azuis, a boca vermelha sem batom. Um ventinho da janela esquecida aberta e zum, pernas pra que te queremos.

A televisão estava ligada. Jornal Nacional, e tinham morrido mais não sei quantos e um cineasta tinha se imortalizado na ABL. No mais, tudo que a gente não conseguia alcançar tinham pintado de cinza: um dia nublado, aqueles que a chuva tá cai-não-cai.

A loiraça, voltando para ela, que parecia ser a protagonista, sacou as unhas vermelhas e pontiagudas, apontou em direção ao homem na tela, respirou fundo, fechou a toalha, escondeu suas vergonhas, desligou a televisão e foi escovar os curtos cabelos, que hoje era.