sábado, setembro 22, 2007

Ela disse que o amava agonizando. E deixou cada fio de lágrima formar uma vereda úmida na sua pele, como um rio de chuva que nasce, descobrindo a terra seca. Como era ela seca! E cansada, e longa, e última! Como ela era subtância desgastada e caminhos por entre as bochechas lavradas de lágrimas.

Ela pranteava cada momento em que se deixava abrir seus caminhos na frente dele: cada parte de si ficava à mostra quanto mais a verdade mortal daquele amor abraçava seu peito. Tinha raiva daquele amor. Sabia que não amava bem, e sabia que não podia amar de outro jeito.

E sabia que ia terminar da única maneira que aquele amor podia terminar: da mesma maneira que o melhor dos amores termina; da única maneira que o amor desvelado pode terminar: e aquela lembrança, que iria restar por tudo que foi, nunca, nunca se tornou saudade.

quinta-feira, julho 19, 2007

A hora de Wilson

A hora, como todas as outras horas, havia se aproximado e Wilson, não sendo bobo nem nada, decidiu por fazer o que fizeram os garotos do Dead Poets Society: to seize the day.

A vida nunca foi tão bela; os lagos, nunca dantes navegados, eram cristalinos; os problemas, pouco mais que uma caminhada de distância da resolução; os beijos! ah, os beijos... tudo encaixava-se num quebra-cabeça latente. Wilson regojizava-se da descoberta deste seu lado perfeito e semi-divino, praticamente eterno.

Chegou, então, a hora de Wilson, e como tudo nesse mundo de palavras e pontos-finais, acabaram-se seus lagos nunca dantes cristalinos, seus problemas resolucionados, sua vida tão-bela, seu beijos - ah, seus beijos... - O quebra-cabeça a hora desmontou sem guardar de volta na caixa, deixando as peças jogadas pelo chão do apartamento alugado.

sexta-feira, maio 04, 2007

There's no way out!

We'll make one! - she screamed, pointing her ray gun at the steel wall: there was only one minute for the station to implode and leave nothing but their souls among the space dust.

Cover yourself! - she said, as the blaster burst through the wall, leaving a hole only big enough for one to pass at a time. Thirty seconds now.

Go! Go, go! - she cried, pushing him through the tight passage, before the fire on the second floor could get to where they were. Nothing more to be said, except they both escaped, but were caught in the vortex that bended time and space in that region of the galaxy.

quarta-feira, abril 04, 2007

Dona Lupicínia, senhora enxuta, disse-me que, enquanto pitava, ficava solta pelo mundo feito gaivota no lixo em final de filme americano; o cigarro era de hortelã, daqueles fininhos: e só acendia com fósforo.

Dona Lupicínia era Do Amaral: eu, da casa vizinha, e andava de macacão surrado: do meu irmão mais velho, que tinha ido pra capital trabalhar com uma tia nossa, que era tia só porque se casou com o tio Tontôi. Mas isso é eu, e Dona Lupicínia, enxuta do jeito que é, não gosta de esperar quando pita: pois diga logo, menino!

Perguntei: Dona Lupicínia, por favorzinho: será que a senhora poderia, por obséquio e gentileza, me desemcabaçar enquanto eu pito esse cigarrinho de hortelã que a senhora tanto segura entre os dois dedos? Só uma vezinha?

domingo, março 18, 2007

Agora com força, minha Marta toca-se e vejo-a, aos poucos, aumentar a intensidade de sua respiração; ordeno que pare, mas ela não pára, a minha Marta, e aqui é onde ela começa a existir.

Adormece na cama que acabei de lhe dar; não sei se sonha: não a conheço ainda, a minha Marta toda desregulada. Seu nome, conheço-o e conheço que dorme nua e desregulada; sei de coisas inefáveis sobre a minha Marta e não sei-lhe o porquê.

E desponta um narrador sem personagem, sem cenário, sem tempo. Quase sem voz. E sento-me ao lado de Marta, aproveitando minhas últimas batidas de existência para perguntar-lhe: não és mais minha, Marta: que podes desejar tanto assim? Contudo, a cena vai-se esvaindo até o ponto final.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Uma história de Gisela

Ouviram pelo rádio que não havia sobreviventes, e Gisela caiu-se aos prantos no meio da sala, esquecendo de segurar o prato com as xícaras de café, inundando o carpete. A família se levantou dos sofás e cadeiras para acudi-la. Apoiada no braço do sofá, só conseguia respirar entre os soluços. E a família nem estava toda lá: quem faltara era o filho de Gisela, Silveira. Menino bom, da marinha. Viajara ao Rio para visitar o pai, que tinha acrofobia.

Deu no que deu: Silveira foi, e deveria voltar de avião.

Mas Silveira nunca foi encontrado. Simplesmente foi esmaecendo da memória de todo mundo, menos da de Gisela, sua mãe, que nunca conseguiu secar decentemente o carpete e pegou trauma do cheiro de café.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Jogando fora os impressionismos gordos

(Na cozinha, olhando para cima) Tem uma luz aqui em casa que passou muito tempo queimada, sem ninguém com coragem de trocar. Aí trocaram. O negócio é que agora ninguém mais usa ela: fica parecendo outra casa, outro lugar, estranho, até assustador, é a nossa casa, mas não é a nossa casa, sabe?

(No quarto, deitado, olhando pra rede) Os mosaicos da rede são como vários olhos arregalados, assustados, negros e hipnotizados, saídos de um pesadelo para me atormentar o sono, a noite; noite de lua nova, envergonhada, agonizante, tímida, fraca, que definha. Mil olhos me perscrutam.

(No quarto, abrindo o plano: analisando o som, a matéria se contraindo, saindo só do olhar) O som contínuo do ventilador no quarto pequeno é um mantra: fraco, depois se intensifica ... para enfraquecer novamente; os barulhos do prédio se contraindo no frio da madrugada são fantasmagóricos, impossíveis; janelas sendo fechadas, buzinas o ventilador, algum alarme de carro, um burro relincha - não conhece a hora de calar. Alguém vai ao banheiro, o cachorro se espreguiça, a lua se esconde entre as nuvens, o portão se abre, o namorado volta para sua casa. Madrugada adentro, o inevitável ranger dos armadores no suporte velho e sem óleo.

sábado, janeiro 27, 2007

Parafraseado de Laing (1969)

Margaret era filha de sua mãe, que alternava o modo como a chamava: Maggie era sua filhinha pequenina e ingênua; Margaret era uma mulher crescente, própria, que sabia tomar conta de sua cabeça.

Certo dia, estava no jardim de sua casa, no final da tarde, conversando com alguns de seus amigos, quando sua mãe apareceu na janela e gritou-lhe: Margaret, venha para dentro, agora!

Sem saber o que fazer, a menina-mulher-menina virou o olhar para sua mãe, virou o olhar para si, não encontrou nada e quando foi procurar novamente não havia mais ninguém para lhe segurar o choro.

sábado, janeiro 06, 2007

Talvez me sinta aliviado afinal; talvez venha como o final que sempre quis: dramático, vermelho, épico; um gran finale digno de mistério e silêncio. A audiência se calaria em resposta às maravilhas presenciadas, às explosões, aos sortilégios, ao zênite da estória; toda a mentira ruindo pelo palco, escoando pelo chão, molhando a casa, ensopando seus sapatos lustrosos e negros. Um true broadway spetacle.

Ela sabe meu nome, vai usá-lo e aí tudo estará terminado. E este espelho que carrego há tantos anos partir-se-á em trezentos pedaços no quebrar do silêncio. Quando ouví-la falar. Quando da última vez que troquei palavras com alguém? Que escutei a melodia de outra voz que não a da saudade? Quando meus ouvidos dançaram pelo salão de outra música que não a que sai das cordas deste piano velho, que já cede? O tempo passou-me, deu-me um adeus rapidíssimo e deixou-me com a música de companheira. Vou parar de tocar. Ela chegou.

E talvez venha com o final que eu sempre quis.

segunda-feira, janeiro 01, 2007

Know Your Rights

I

Sinceramente, não sei. E na mesma hora ela pensou como essa, com certeza, estava na Top Dez das mais estúpidas; podia ter respondido qualquer coisa, ou nem ter respondido at all: ter deixado o silêncio fazer os sortilégios voláteis de sempre. Mas não, agora já foi, deixa.

A camisa do The Clash gritava. Lembrou-se da tatuagem da Angelina Jolie, essa dona também é gostosa, mas eu tenho logo que ir mimbora. Olhou pro outro lado, procurando o Parangaba/Papicu. Passou um tempo, passou outro, ela respirava com os braços cruzados, apertando os tríceps que não tinham nada demais; não gritavam como a camisa dele. E as havaianas dela eram pretas.

Gosta de The Clash? Que remédio! Gosto, cara, tenho essa e outra, e tu? Eu? Num tenho camisa, mas tenho um London Calling piratão que um amigo me deu, mas nem escuto muito e tal... Porra, estúpida! Sério, cara? Eu gosto do Combat Rock, ó. E daí, porra?! Tomou fôlego: Sabe, quando te vi, me lembrei da Know Your Rights, continou, e da Angelina Jolie também, por causa da tattoo dela aqui nas costas. Sério? Sério, cara. Sorriu, e ele pensou que não precisava ir embora logo.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Depois da meia noite, mas longe do sol nascer.

Quem dirigia era a irmã, que fazia tempo não fumava. O irmão na frente, mas meio que virado pra trás, conversando com a amiga dos dois: mas, Caio, vou te dizer, sabe qual é a melhor coisa que tem depois de fumar? É transar, pense: tu sente tudo ao extremo, o que vem na cabeça chega lá no dedão do pé. Aí, ele pensou: "Que porra é essa? Essa dona tá me queixando?" Tentou desconversar. Pois é, comer também. Porque dava fome e tal; a famosa "larica." E ela não desconversou, não. É, mas come antes, durante e depois.

O carro era um Gol vermelho.

quinta-feira, novembro 02, 2006

In memoriam

Aconteceu num sofá largo, esverdeado. O avô sentou na extremidade esquerda; a avó, na direita. Ambos estavam com os caçulas no colo; os pais e mães se alternavam no meio, enquanto as meninas se posicionavam de pé, com cuidado para não ficar na frente de ninguém. Todos espremidos, menos uma das tias, que tirou a foto.

Houve outras fotografias como aquela. Mantivemos nossas posições, embora a família houvesse aumentado; alguns tiveram de sentar no chão, e a filha mais velha sentava agora no lugar do nosso avô, que falecera há sete anos. A tia que tirou a primeira foto apareceu em todas as outras: pedíamos a um empregado que as tirasse, ou a um fotógrafo contratado.

Me lembro de uma família numerosa, com dezessete pessoas, de pais, mães e avós a filhos, primos e irmãos. Todos haviam brincado juntos, e ceado juntos, e crescido juntos, e numa certa noite de natal, todos posaram juntos para uma foto.

domingo, setembro 10, 2006

Talvez.

Talvez;

Talvez,

terça-feira, agosto 08, 2006

Ele fugiu novamente, fugiu de mim:
Quero e não quero; quero, mas não quero; não quero querer: desejo-o, sim, com toda paixão; nada mais que um significante vazio acordo no espelho do banheiro e tenho medo; medo de dentro, do que posso não encontrar; o que pode acontecer se não encontrar nada aqui dentro? Talvez ele fuja novamente, talvez não se importe. Não tenho certeza, não sei.

Crucial: O que pode acontecer?

Marj, Marj... I know how to go through the motions - but I'm hollow, a fraud. I'm only half a man!
John Constantine

segunda-feira, agosto 07, 2006

Onda e onde. No meu olho esquerdo, eu vejo o mar e onde ele acaba.

Direito: eu vejo um lugar onde não sei: queria escrever onda, acabou saindo onde; talvez eu quisesse me afogar, mas em outro lugar. Talvez um afogamento metafórico, desses que a gente vê na tevê; desses de mentira, que dá pra voltar atrás, que dá pra desmentir; dessas mortes que provam que a vida tem porquês e causas e quandos e ondes e ondas.

No meu olho esquerdo, observo o mar e espero ele entrar dentro de si mesmo novamente. A água está morna.

domingo, agosto 06, 2006

Caros presidentes dos países amigos,

Venho por meios desta apresentar-lhes aquela de ontem; aquela, que eu esqueci o nome, aquela! Vocês sabem qual é.

Último parágrafo.

quarta-feira, julho 05, 2006

Nostalgia

sa:u.da.de sf. Lembrança nostálgica de pessoas ou coisas distantes e extintas.

nos.tal.gi.a sf. 1. Saudade da pátria. 2. P. ext. Saudade.

sa:u.da.de sf. Lembrança nostálgica de pessoas ou coisas distantes e extintas.

terça-feira, julho 04, 2006

Lembranças de mil novecentos e sessenta e oito.

- Eu estava em Praga, quando de 68. Tudo aconteceu muito rápido, lembro pouco: derrubaram meu cigarro, as estruturas não desciam às ruas e não havia um táxi na rua. Tanques aos montes, mas nem sei se esta certeza é verdade. Não precisa ser para o que eu desejo criar, nem precisa de fazer sentido daqui da onde eu estou olhando. Como os começos do Rosa.

...Fazia muito frio, e eu estava sem cueca. Ninguém usava cueca. Eu havia esquecido a minha dentro da gaveta. Talvez por isso nenhum táxi apareceu. E o tal tanque se imiscuiu tão extraordinariamente no meu caminho.

(Ah, e o meu gato. Está tudo bem com ele: estava dormindo em cima da cama pela manhã, e no meu colo de tardezinha.)

sábado, julho 01, 2006

Quando. Quando não. Quando tem tempo, eu quero sair do tempo, quero levar um susto: quero pegar sarna, passar remédio barato, passar sabão côco e ficar boa como antes eu ficava boa. Antes doença. Não, antes também tem tempo, coisa que eu já disse que não quero. Também não quero eu. Bando de armadilhas. Eu quero dizer sem fascismo. Mas não quero que seja eu a dizer. Talvez o outro, quem sabe...

Mas. Porém. Inconcebível. Um barômetro pra medir o grau de liberdade do meu ouvido. Depois - depois tem tempo, é que não resisti - eu... Deixa pra lá.

Não tenho a menor intenção de fazer sentido por ora. Nem de jogar bonito. Quero chutar a gol.

quinta-feira, junho 29, 2006

Nos EUA.

E o gato subia no colo dela, mas tinha que terminar aquela matéria pra ontem. E as gotas de água batiam na janela. Queremos entrar!, diziam. Não podem! I have to finish this first! É que ela morava nos Estados Unidos já faziam três anos, e havia descoberto que as gotas de lá - inclusive as da pia - só entendiam os english da vida.

O gato era brasileiro. Ela, de Sorocaba, que eu nem sei onde fica.

A matéria não deu pra me ver, nem ler: não me deixou entrar.