domingo, março 18, 2007

Agora com força, minha Marta toca-se e vejo-a, aos poucos, aumentar a intensidade de sua respiração; ordeno que pare, mas ela não pára, a minha Marta, e aqui é onde ela começa a existir.

Adormece na cama que acabei de lhe dar; não sei se sonha: não a conheço ainda, a minha Marta toda desregulada. Seu nome, conheço-o e conheço que dorme nua e desregulada; sei de coisas inefáveis sobre a minha Marta e não sei-lhe o porquê.

E desponta um narrador sem personagem, sem cenário, sem tempo. Quase sem voz. E sento-me ao lado de Marta, aproveitando minhas últimas batidas de existência para perguntar-lhe: não és mais minha, Marta: que podes desejar tanto assim? Contudo, a cena vai-se esvaindo até o ponto final.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Uma história de Gisela

Ouviram pelo rádio que não havia sobreviventes, e Gisela caiu-se aos prantos no meio da sala, esquecendo de segurar o prato com as xícaras de café, inundando o carpete. A família se levantou dos sofás e cadeiras para acudi-la. Apoiada no braço do sofá, só conseguia respirar entre os soluços. E a família nem estava toda lá: quem faltara era o filho de Gisela, Silveira. Menino bom, da marinha. Viajara ao Rio para visitar o pai, que tinha acrofobia.

Deu no que deu: Silveira foi, e deveria voltar de avião.

Mas Silveira nunca foi encontrado. Simplesmente foi esmaecendo da memória de todo mundo, menos da de Gisela, sua mãe, que nunca conseguiu secar decentemente o carpete e pegou trauma do cheiro de café.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Jogando fora os impressionismos gordos

(Na cozinha, olhando para cima) Tem uma luz aqui em casa que passou muito tempo queimada, sem ninguém com coragem de trocar. Aí trocaram. O negócio é que agora ninguém mais usa ela: fica parecendo outra casa, outro lugar, estranho, até assustador, é a nossa casa, mas não é a nossa casa, sabe?

(No quarto, deitado, olhando pra rede) Os mosaicos da rede são como vários olhos arregalados, assustados, negros e hipnotizados, saídos de um pesadelo para me atormentar o sono, a noite; noite de lua nova, envergonhada, agonizante, tímida, fraca, que definha. Mil olhos me perscrutam.

(No quarto, abrindo o plano: analisando o som, a matéria se contraindo, saindo só do olhar) O som contínuo do ventilador no quarto pequeno é um mantra: fraco, depois se intensifica ... para enfraquecer novamente; os barulhos do prédio se contraindo no frio da madrugada são fantasmagóricos, impossíveis; janelas sendo fechadas, buzinas o ventilador, algum alarme de carro, um burro relincha - não conhece a hora de calar. Alguém vai ao banheiro, o cachorro se espreguiça, a lua se esconde entre as nuvens, o portão se abre, o namorado volta para sua casa. Madrugada adentro, o inevitável ranger dos armadores no suporte velho e sem óleo.

sábado, janeiro 27, 2007

Parafraseado de Laing (1969)

Margaret era filha de sua mãe, que alternava o modo como a chamava: Maggie era sua filhinha pequenina e ingênua; Margaret era uma mulher crescente, própria, que sabia tomar conta de sua cabeça.

Certo dia, estava no jardim de sua casa, no final da tarde, conversando com alguns de seus amigos, quando sua mãe apareceu na janela e gritou-lhe: Margaret, venha para dentro, agora!

Sem saber o que fazer, a menina-mulher-menina virou o olhar para sua mãe, virou o olhar para si, não encontrou nada e quando foi procurar novamente não havia mais ninguém para lhe segurar o choro.

sábado, janeiro 06, 2007

Talvez me sinta aliviado afinal; talvez venha como o final que sempre quis: dramático, vermelho, épico; um gran finale digno de mistério e silêncio. A audiência se calaria em resposta às maravilhas presenciadas, às explosões, aos sortilégios, ao zênite da estória; toda a mentira ruindo pelo palco, escoando pelo chão, molhando a casa, ensopando seus sapatos lustrosos e negros. Um true broadway spetacle.

Ela sabe meu nome, vai usá-lo e aí tudo estará terminado. E este espelho que carrego há tantos anos partir-se-á em trezentos pedaços no quebrar do silêncio. Quando ouví-la falar. Quando da última vez que troquei palavras com alguém? Que escutei a melodia de outra voz que não a da saudade? Quando meus ouvidos dançaram pelo salão de outra música que não a que sai das cordas deste piano velho, que já cede? O tempo passou-me, deu-me um adeus rapidíssimo e deixou-me com a música de companheira. Vou parar de tocar. Ela chegou.

E talvez venha com o final que eu sempre quis.

segunda-feira, janeiro 01, 2007

Know Your Rights

I

Sinceramente, não sei. E na mesma hora ela pensou como essa, com certeza, estava na Top Dez das mais estúpidas; podia ter respondido qualquer coisa, ou nem ter respondido at all: ter deixado o silêncio fazer os sortilégios voláteis de sempre. Mas não, agora já foi, deixa.

A camisa do The Clash gritava. Lembrou-se da tatuagem da Angelina Jolie, essa dona também é gostosa, mas eu tenho logo que ir mimbora. Olhou pro outro lado, procurando o Parangaba/Papicu. Passou um tempo, passou outro, ela respirava com os braços cruzados, apertando os tríceps que não tinham nada demais; não gritavam como a camisa dele. E as havaianas dela eram pretas.

Gosta de The Clash? Que remédio! Gosto, cara, tenho essa e outra, e tu? Eu? Num tenho camisa, mas tenho um London Calling piratão que um amigo me deu, mas nem escuto muito e tal... Porra, estúpida! Sério, cara? Eu gosto do Combat Rock, ó. E daí, porra?! Tomou fôlego: Sabe, quando te vi, me lembrei da Know Your Rights, continou, e da Angelina Jolie também, por causa da tattoo dela aqui nas costas. Sério? Sério, cara. Sorriu, e ele pensou que não precisava ir embora logo.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Depois da meia noite, mas longe do sol nascer.

Quem dirigia era a irmã, que fazia tempo não fumava. O irmão na frente, mas meio que virado pra trás, conversando com a amiga dos dois: mas, Caio, vou te dizer, sabe qual é a melhor coisa que tem depois de fumar? É transar, pense: tu sente tudo ao extremo, o que vem na cabeça chega lá no dedão do pé. Aí, ele pensou: "Que porra é essa? Essa dona tá me queixando?" Tentou desconversar. Pois é, comer também. Porque dava fome e tal; a famosa "larica." E ela não desconversou, não. É, mas come antes, durante e depois.

O carro era um Gol vermelho.

quinta-feira, novembro 02, 2006

In memoriam

Aconteceu num sofá largo, esverdeado. O avô sentou na extremidade esquerda; a avó, na direita. Ambos estavam com os caçulas no colo; os pais e mães se alternavam no meio, enquanto as meninas se posicionavam de pé, com cuidado para não ficar na frente de ninguém. Todos espremidos, menos uma das tias, que tirou a foto.

Houve outras fotografias como aquela. Mantivemos nossas posições, embora a família houvesse aumentado; alguns tiveram de sentar no chão, e a filha mais velha sentava agora no lugar do nosso avô, que falecera há sete anos. A tia que tirou a primeira foto apareceu em todas as outras: pedíamos a um empregado que as tirasse, ou a um fotógrafo contratado.

Me lembro de uma família numerosa, com dezessete pessoas, de pais, mães e avós a filhos, primos e irmãos. Todos haviam brincado juntos, e ceado juntos, e crescido juntos, e numa certa noite de natal, todos posaram juntos para uma foto.

domingo, setembro 10, 2006

Talvez.

Talvez;

Talvez,

terça-feira, agosto 08, 2006

Ele fugiu novamente, fugiu de mim:
Quero e não quero; quero, mas não quero; não quero querer: desejo-o, sim, com toda paixão; nada mais que um significante vazio acordo no espelho do banheiro e tenho medo; medo de dentro, do que posso não encontrar; o que pode acontecer se não encontrar nada aqui dentro? Talvez ele fuja novamente, talvez não se importe. Não tenho certeza, não sei.

Crucial: O que pode acontecer?

Marj, Marj... I know how to go through the motions - but I'm hollow, a fraud. I'm only half a man!
John Constantine

segunda-feira, agosto 07, 2006

Onda e onde. No meu olho esquerdo, eu vejo o mar e onde ele acaba.

Direito: eu vejo um lugar onde não sei: queria escrever onda, acabou saindo onde; talvez eu quisesse me afogar, mas em outro lugar. Talvez um afogamento metafórico, desses que a gente vê na tevê; desses de mentira, que dá pra voltar atrás, que dá pra desmentir; dessas mortes que provam que a vida tem porquês e causas e quandos e ondes e ondas.

No meu olho esquerdo, observo o mar e espero ele entrar dentro de si mesmo novamente. A água está morna.

domingo, agosto 06, 2006

Caros presidentes dos países amigos,

Venho por meios desta apresentar-lhes aquela de ontem; aquela, que eu esqueci o nome, aquela! Vocês sabem qual é.

Último parágrafo.

quarta-feira, julho 05, 2006

Nostalgia

sa:u.da.de sf. Lembrança nostálgica de pessoas ou coisas distantes e extintas.

nos.tal.gi.a sf. 1. Saudade da pátria. 2. P. ext. Saudade.

sa:u.da.de sf. Lembrança nostálgica de pessoas ou coisas distantes e extintas.

terça-feira, julho 04, 2006

Lembranças de mil novecentos e sessenta e oito.

- Eu estava em Praga, quando de 68. Tudo aconteceu muito rápido, lembro pouco: derrubaram meu cigarro, as estruturas não desciam às ruas e não havia um táxi na rua. Tanques aos montes, mas nem sei se esta certeza é verdade. Não precisa ser para o que eu desejo criar, nem precisa de fazer sentido daqui da onde eu estou olhando. Como os começos do Rosa.

...Fazia muito frio, e eu estava sem cueca. Ninguém usava cueca. Eu havia esquecido a minha dentro da gaveta. Talvez por isso nenhum táxi apareceu. E o tal tanque se imiscuiu tão extraordinariamente no meu caminho.

(Ah, e o meu gato. Está tudo bem com ele: estava dormindo em cima da cama pela manhã, e no meu colo de tardezinha.)

sábado, julho 01, 2006

Quando. Quando não. Quando tem tempo, eu quero sair do tempo, quero levar um susto: quero pegar sarna, passar remédio barato, passar sabão côco e ficar boa como antes eu ficava boa. Antes doença. Não, antes também tem tempo, coisa que eu já disse que não quero. Também não quero eu. Bando de armadilhas. Eu quero dizer sem fascismo. Mas não quero que seja eu a dizer. Talvez o outro, quem sabe...

Mas. Porém. Inconcebível. Um barômetro pra medir o grau de liberdade do meu ouvido. Depois - depois tem tempo, é que não resisti - eu... Deixa pra lá.

Não tenho a menor intenção de fazer sentido por ora. Nem de jogar bonito. Quero chutar a gol.

quinta-feira, junho 29, 2006

Nos EUA.

E o gato subia no colo dela, mas tinha que terminar aquela matéria pra ontem. E as gotas de água batiam na janela. Queremos entrar!, diziam. Não podem! I have to finish this first! É que ela morava nos Estados Unidos já faziam três anos, e havia descoberto que as gotas de lá - inclusive as da pia - só entendiam os english da vida.

O gato era brasileiro. Ela, de Sorocaba, que eu nem sei onde fica.

A matéria não deu pra me ver, nem ler: não me deixou entrar.

sexta-feira, maio 19, 2006

Tinho que falar com vocês, porque não agüentei ficar longe daqui, tão bom aqui, né? Se lembram de quando a gente chorava, sem saber o porquê, mas depois tudo ficava bem a gente ia lá e fazia de novo? Só pra ver o que ia acontecer? Lembram? Bons tempos, e eu nunca quis que eles acabasse,, por isso que eu voltei. Obrigada.

Não, não, não fui tão longe assim. Só tinha que sair, conversar com o povo, entender o que se passa no mundo. Acabei sem saber mais, mas voltei de outro jeito, com menos cabeça e mais olhares. Tô bem empírica agora.

É só isso mesmo, por ora, tá bom? Pode avisar pras outras - ou eu mesmo aviso, se tiver tempo e coragem - que eu tô bem e que eu acho que sei o que fazer da minha vida. Um beijo.

sexta-feira, abril 14, 2006

Fábula sem pé nem cabeça.

Há muito tempo, quando ainda havia pessoas que sabiam das coisas, num reino distante, morava, sozinha, a menina sem gratidão. Todo dia, alguém vinha, e deixava comida na porta da torre, e ela sabia que sempre que abrisse a porta àquela hora, iria encontrar um prato bem gostoso: macarrão, pizzas, bananas, maçãs - às vezes, tudo misturado. E acreditava que tudo aquilo era só pra ela, que era mágica.

Mas era o jovem mensageiro quem sempre pagava o pato. Ou prato: não ganhava gorjeta, passava um tempão esperando alguém vir pegar a entrega, e nunca ninguém chegava. Ia embora, mas no outro dia, o prato havia sumido e lá ia ele explicar pro cozinheiro que alguém roubara o prato. Mas como você me perde um prato cheio de tanta comida, rapaz?! Mas não há ninguém naquela torre, senhor! Nunca vi ninguém lá, nem pela janela, nem à porta! E o senhor ainda me paga pouco e eu tenho que andar dez quilômetros todo dia, pra deixar comida pra ninguém! A culpa não é minha!

Nunca mais se ouviu falar do jovem mensageiro, depois desta discussão. E a menina do alto da torre amaldiçoou deus e o mundo. Morreu de inanição, sozinha, com os ratos, do alto daquela torre escura, numa noite de chuva parca.

segunda-feira, abril 10, 2006

O cadernim.

Foi atrás daqueles caderninhos de anotações, que o último tinha acabado, só algumas folhinhas no final. Tinha que ser daqueles peuqnininhos, pocket, de poder levar mesmo no bolso, pra sacar na hora que a Hora se cristalizar em galhos, em olhares, em ruas. Os caderninhos são pra agarrar o rastro de poeira do instante.

Os instantes são os nenúfares da Alice. Pra você que não sabe o que é um nenúfar, é parecido, quase igual, com uma vitória régia. Os instantes são a falta, são a saudade. Eu quero o meu instante, cadê? Vala me deus, ele parece sabonete com água, e caiu justo em cima do boeiro.

O instante são os outros. O instante é sujo, é opaco e transparente. Instante não é signo, signo é o que agente descobriu pra tentar chegar no instante, mas o instante é sempre depois. E quando cheguei na loja, nem tinha o cardeninho, e eu tive que ir embora só sentido, sem palavrar.

quinta-feira, abril 06, 2006

Vento vindo de cima.

O céu lá em cima e eu todo mundo em baixo, sem daber da sua história, nem conhecer quantas lágrimas foram fabricadas. Tão artificialmente algumas vezes, mas teve vezes necessárias. Lágrimas são sempre necessárias: nos momentos certos: se for toda hora, elas irão o poder poderosíssimo que possuem since the beginning of time.

Dizia que o céu lá do alto nos observava aqui embaixo; e enquanto digo isso, observo um olho azul, na borda da praia, esperando alguém parar para me ajudar - onde estão os bons amaritanos? - mas ou não tem ninguém na praia, e somos só nós dois, ou as pessoas estão desviando as vidas para bem longe daqui. Talvez seja culpa do céu, que não pára de nos encarar.

Quero ir para bem longe e deixar esse cadáver de olhos azuis para o mar engolir.